Pegação pública: Por que a regra só vale para um lado?

Enquanto o sexo hétero na praia vira poesia matinal na TV, a exposição de espaços LGBT+ alimenta a engrenagem da violência e do voto.

O Mito e o Caçador: À esquerda, o mistério urbano na xilogravura da lendária "Perna Cabeluda", pelo artista Murilo. À direita, o jornalista Carlos Carone (Reprodução/Twitter), cuja coluna no Metrópoles transforma a sobrevivência marginalizada no novo pânico moral da internet.

É interessante o fascínio do jornalista Carlos Carone, do Metrópoles, na exposição da vida cruising de Brasília. Logo ele, um homem branco e hétero cheio de tendências bolsonaristas em seu currículo. Seu trabalho é digno de um episódio especial no podcast Rádio Novelo Apresenta, fazendo uma linha do tempo que destrincha como surgiu o termo “Perna Cabeluda”, imortalizado pelo filme Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho.

O trabalho de Carone só demonstra como a mídia corporativa continua apostando nos LGBTs como algo peculiar e marginalizado — como seres dignos de exclusão, tal qual o Notícias Populares e seus derivados impressos faziam, e hoje o Metrópoles e as “Choqueis” da vida continuam a fazer na internet.

O mais alarmante é observar membros da própria comunidade LGBTQIAP+ comemorando essas publicações no X (antigo Twitter), Instagram e Bluesky como se fossem conquistas. A exposição desses espaços já resultou em ataques LGBTfóbicos, além de fomentar vídeos amadores no YouTube que atuam como alavancas políticas de extrema-direita.

Acredito que toda essa exposição também deveria vir acompanhada de um balde de água fria da realidade como: Por que ainda existem pessoas LGBTs que precisam satisfazer suas vontades sexuais em locais públicos em vez de dentro de seus lares? A repressão a grande parte dessa comunidade acabou mesmo? Ou ela só continua violentamente, a ponto de alguns só poderem ter escapismos nesses lugares? 

Aliás, já vimos casais héteros transando na praia superpopulada em pleno mar em cima da prancha no Rio de Janeiro e a repercussão do grande público foi estranhamente positiva justamente daqueles que veem controvérsias em relações homoafetivas.

A jornalista Isabele Benito, do SBT, inclusive, exibiu a cena em tom romântico, com direito a trilha sonora de Lulu Santos, ao som de “Como uma onda no mar”, em plenas onze e quarenta minutos da manhã do dia 20 de janeiro de 2022. Nada muito diferente do G1, Jovem Pan, UOL ao mostrarem uma cena ocorrida em janeiro deste ano na Praia do Arpoador. 

Esse mesmo sentimento de alteridade é negado às mulheres transexuais vitimadas no país por simplesmente existirem, estendendo-se a violência até mesmo a heterossexuais que subvertem a masculinidade frágil, como demonstra o caso de João Garrido, agredido com seu filho por estarem abraçados em um show em 2011. E o grupo de agressores alegou na época que os confundiu, os dois, como casal gay.

Longe de mim, problematizar o fazer jornalístico de investigar e abordar o tema cruising na sociedade, aliás, até levanto a bandeira de apoio, mas respeitosamente à comunidade LGBT, como também mostrando os locais heterossexuais de pegação noturna em espaços públicos, muito bem aceitos. Aliás, minha rua inclusive vira um bordel para casais héteros e broteragens nos finais de semana, com muita vista grossa da polícia local. 

Os acontecimentos sexuais dignos do vídeo mais visto do XVideos na semana ocorrem tanto nas poucas árvores que existem nessa longa rua, como nos carros sem isofilme, aqui em Santos. Já que moro perto de um hiper badalado bar hétero na avenida Afonso Pena, que até serviu de lugar de lançamento de campanha para político do MBL.

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