O fenômeno Demori e o enigma da TV aberta

Como a goleada de audiência de um único jornalista expõe a crise estrutural do ICL e os mistérios financeiros por trás da expansão de canais deficitários.


A saída de Leandro Demori do ICL Notícias está bem interessante quando olhamos para os números. Com uma hora de live, na faixa das 7h às 8h, Demori tem mais audiência que as 5h30 de transmissão ao vivo das manhãs do ICL, na faixa das 7h às 12h30. 

Por exemplo: na última terça-feira, na faixa das 8h às 9h, Demori teve 166 mil visualizações contra 115 mil do ICL na faixa das 7h às 14h. Ontem, quarta-feira, na faixa das 6h56 às 8h, ele teve 104 mil visualizações contra 101 mil do ICL das 7h às 14h22.

Quando avaliamos os números da semana anterior, vemos que a saída de Leandro impactou negativamente a audiência das lives matutinas do ICL Notícias. No dia 7 de julho, a transmissão registrou 132 mil visualizações; já em 8 de julho, o volume foi de 146 mil.

É paradoxal que o ICL Notícias busque se aproximar do formato de hard news comercial justamente às vésperas do período eleitoral. Compreende-se que os custos de manter uma estrutura jornalística robusta no formato independente imponham um pesado fardo financeiro.

Contudo, o argumento oficial de asfixia econômica ruiu após o vazamento de uma ata interna de distribuição de lucros do ICL, revelando que a empresa distribuiu R$ 43.665.886,47 entre os sócios referentes aos anos de 2024 e 2025. O próprio Eduardo Moreira, detentor de 57,48% do negócio, abocanhou R$ 25.099.151,54 em ganhos milionários, enquanto o Sindicato dos Jornalistas já acompanha com preocupação o cenário de demissões em massa no canal. 

Ao analisar o trabalho de Leandro Demori no instituto, nota-se que ele consolidou uma equipe qualificada, capaz de transitar com propriedade entre o jornalismo investigativo e o de opinião baseado em fatos. Distanciando-se dos filtros comerciais que regem emissoras como Globo, Folha, Estadão, Record, CNN Brasil e Jovem Pan, as quais o próprio Eduardo Moreira frequentemente critica em seus editoriais.

Em meio às discussões sobre essa ruptura, que para alguns opera como uma cortina de fumaça, um fenômeno paralelo tem passado despercebido: a movimentação da CNN Brasil e da Jovem Pan rumo à TV aberta. 

É intrigante que empresas que historicamente operam em déficit e cujas linhas editoriais insistem na tese de uma economia nacional supostamente colapsada sob o governo Lula, demonstrem repentina capacidade de investimento para essa expansão de sinal. Diante disso, o questionamento inevitável é: qual é a origem desse capital e quem são os novos financiadores? 

Por exemplo, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos-MG) foi o principal articulador nos bastidores do retorno da rádio Jovem Pan ao Rio de Janeiro e da expansão da rede em Minas Gerais, em fevereiro de 2026. Agora, em julho, segundo o jornalista Bernardo Mello, do jornal O Globo, descobriu-se que o ex-deputado direcionou emendas parlamentares para prefeituras mineiras mesmo sem estar no mandato.

Essas emissoras fazem parte da estratégia de Cunha para se tornar conhecido no estado, onde pretende concorrer a deputado federal neste ano, após décadas de atuação política no Rio de Janeiro. Parte dos prefeitos que receberam os recursos que totalizam R$ 6,1 milhões, de acordo com investigação da Polícia Federal (PF) atribuiu a indicação das verbas diretamente a Cunha ao divulgar as obras.

Historicamente, grandes impérios de mídia não surgem no vácuo; a própria Rede Globo consolidou-se durante a ditadura militar com o aporte do grupo norte-americano Time-Life e o respaldo de agentes políticos que viabilizaram o golpe de 1964. Portanto, o cenário exige vigilância acadêmica e social.

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