O cancelamento seletivo de uma vaquinha de um milhão de reais
Como o caso do artista Afroito expõe a hipocrisia de influenciadores e a precarização do mercado de trabalho.
Há cerca de seis dias, um vídeo do influenciador Marcio Rolim chegou ao meu feed do Instagram, com ele reclamando sobre um artista que fez uma vaquinha online de 1 milhão de reais para comprar uma casa que ele alugou e quitar as dívidas.
Eu não terminei de ver o vídeo do Márcio, pois o acompanho já há mais de 4 anos, quando ele ainda utilizava o nome Bee Quarentona. E sei bem que essa bicha sabe ser amargurada quando quer, mas parece que a idade já está cobrando resultados nos quais a terapia, estudo e um pouco de empatia podem ajudar.
Mas vamos primeiro ao caso: Hoje, dia 30 de julho de 2026, saiu uma matéria no G1 de Pernambuco repercutindo a situação com o artista Afroito, que abriu uma vaquinha para pagar uma dívida de seis meses de aluguel que já soma cerca de 50 mil reais. O aluguel mensal do imóvel é de 5 mil reais. Então, para entendedores do Brasil Real, o cara contratou um aluguel que não pode pagar.
O vídeo do artista que gerou um caos nas redes sociais mostra um ser humano meio perdido no meio da realidade que é a vida. Afroito relata que fez besteira alugando a casa e não tendo shows suficientes para conseguir pagar o aluguel. Ele relata que gelou após receber a notificação extrajudicial cobrando os seis meses de atraso e que decidiu fazer uma vaquinha online para comprar a casa e quitar as dívidas. Além de citar que o financiamento coletivo para arte não é um problema, principalmente para casos como o que ele passa.
Afroito cita que quem ajudar vai receber brindes como um LP em vinil do primeiro álbum dele, como também um ingresso para a inauguração da sua casa para um show que vai fazer caso bata a meta estipulada de 1 milhão de reais. Na qual até então só conseguiu 8 mil e 395 reais. O artista ainda alega que a casa que alugou estava fechada há 10 anos antes de aceitar o contrato e que ali se encontrou para fazer morada e que, morando em kitnets e apartamentos, não podia receber amigos e colegas de trabalho para ensaios.
Quando assisti ao vídeo do Marcio Rolim, eu já havia sentido um ódio tremendo, mas não do Afroito, e sim do Marcio pela falta de responsabilidade em gerar hate gratuito em quem já está ferrado. Eu não procurei saber quem era o artista nem nada, só me limitei a fechar o celular e esquecer essa história que parou na minha mesa novamente hoje. O que me fez voltar ao vídeo do Marcio, no qual ele chama o Afroito praticamente de vagabundo, por não tentar fazer um concurso público, ou se submeter ao subemprego.
Praticamente, o Márcio repete falas que beiram ao elitismo, considerando que hoje, graças ao dinheiro que ele recebe pelo Youtube, ele tem uma vida confortável de classe média alta. Mas também, se eu começar a listar a carreira do Sr. Bee Quarentona, posso afirmar que ele teve muitos contatos que o ajudaram a chegar onde está, além de também os privilégios sociais e de interseccionalidade.
O próprio Rolin não tentou o concurso público quando se viu desempregado, aliás, se ele tentou, não passou, pois no seu LinkedIn não há nada sobre isso. Quem indica o concurso público para outras pessoas esquece que o tempo que você tem não é o mesmo do outro. É o famoso ditado: “Pau que bate em Chico, não bate em Francisco.”
Agora, sobre o Afroito, eu cito outro ditado popular muito realista: “Quem não tem cú, não contrata pica”, como um artista simplesmente aluga uma casa de 5 mil reais mensais, sabendo que não tem renda? E depois se diz chocado que recebeu uma notificação extrajudicial cobrando os 50 mil, após seis meses?
É o auge da arte de se fazer de sonso e desentendido. O mundo não é um morango, há anos vemos um movimento de jovens de 20 a 35 anos que não saem da casa dos pais, justamente para não ter o risco de se endividar. O que é completamente compreensível, eu mesmo faço parte desse grupo e também me encontro desempregado, mesmo formado. Porém, reconheço que não é todo mundo que tem essa mesma oportunidade e rede de apoio.
Compreendo que morar em kitnet não tenha o mesmo conforto de ter uma casa espaçosa para você receber seus colegas e amigos para criar artisticamente. Infelizmente moramos num país onde a cultura não é valorizada e reconhecida como trabalho. Aliás, vemos as pessoas só valorizando quando a pessoa estoura nas paradas das rádios e começa a ganhar dinheiro.
Mas qualquer pessoa tem a plena noção de que aluguel é um inferno, então quanto mais barato e bom o lugar que você conseguir, melhor! E, principalmente, tendo noção do quanto de dinheiro você vai ter por mês. Olha, eu considero que o financiamento coletivo é bem-vindo para causas de arte, por exemplo, ajudar um coletivo ou artista a pagar um projeto para sair do papel e atingir outras pessoas. Ajudar em causas humanitárias, como cadeiras de rodas e por aí vai.
Mas claro, o caso do Afroito iria viralizar e gerar uma polêmica sem precedentes, afinal temos um recorte bem específico, Afroito é um jovem negro e LGBT+. Não sei se foi de caso pensado, mas ele de alguma forma sabia bem que o racismo e a homofobia engajam nas redes sociais. E no caso do vídeo dele, são inúmeros os comentários chamando-o de vagabundo e outras coisas mais, porém a grande maioria desses comentários, quando analisamos, vem de pessoas brancas. Em sua maioria com um poder aquisitivo de classe média, as redes sociais nos deram a possibilidade de investigar e saber a vida de cada um.
Uma reflexão que fiz sobre esse caso é que, se fosse uma pessoa branca fazendo o mesmo que Afroito, não se teria esse rebuliço midiático, pois já vimos figuras semelhantes aparecerem nas redes sociais e sumirem. Além disso, figuras controversas como Carlinhos Maia, Gkay, Virginia Fonseca e Viih Tube fazem horrores por meio de suas redes sociais, faturando milhões, e não vi o público chamando-as dos nomes que melhor cabem para cada uma de suas atitudes oportunistas e desumanas.
Atualmente, enquanto escrevo esse texto, a arrecadação do Afroito é de 9 mil e 190 reais. Acredito que ele deveria procurar ajuda jurídica para ver o que pode fazer para abater essa dívida do aluguel com os reparos que ele gastou fazendo na casa que estava fechada há dez anos. E também colocar na lista achar um novo lugar para si.
Esse dinheiro que ele conseguiu em duas semanas, eu tenho amigos com projetos autorais lindos que não conseguiram nem chegar a 3% disso no mesmo período. Alguns comentários nas postagens do Marcio Rolim me representaram muito bem, como o do Rodrigo Gomes (@rodrigo_jrgomes) que falou: “Uai, Márcio, é só não ajudar. Mas para que fazer um vídeo para atrasar o rapaz?”.
Me pergunto se fossem as cantoras Urias, Pabllo Vittar e Liniker em seu início de carreira solicitando essa ajuda, o Marcio, que faz parte da comunidade, também as atacaria? O preconceito vem muitas vezes também da nossa própria comunidade. Ninguém começa do mesmo ponto na linha de chegada, não adianta o Sr. Rolim militar sobre diversidade, direitos humanos, desigualdade social nas redes sociais quando ele replica esse desserviço em suas redes.
Sim, o Afroito também tem problemas para resolver, mas ele não bateu na casa do Marcio nem de outros influenciadores solicitando empréstimo. Ele aproveitou o lugar que tinha disponível para fazer isso.
Outro comentário que me chamou a atenção foi o da Adriele Moraes (@drii_moraess): "Para eles, é uma ofensa falar em profissões regulamentadas, faculdade e afins. Se você perguntar a uma criança o que ela quer ser quando crescer, você não vai ouvir: “professor, médico, advogado”. É unânime você ouvir que querem ser influenciadores ou TikTokers 😢 não sei em que momento o mundo se perdeu."
Parece que a realidade das pessoas tem que ser a mesma que de Adriele, especializada em Educação Especial e também pós-graduada em psicopedagogia e terapia ABA. Aliás, ela é também casada com um músico, o Thiago Cordeiro (@cordeirott12). E tem um filho no espectro, imagine se no futuro, esse filho se desenvolver para as artes? Será que vai surtar? E querer jogá-lo num abrigo? Acredito que não!
Mas basta ler as notícias que ela vai ver que o salário de um professor não é bom o suficiente, além de ser um cargo concorrido por concurso público e repleto de riscos. A carreira de advogado é precarizada igual à de um jornalista, a maioria no modelo PJ e só entra por meio de sobrenome ou indicação cruzada e quando, por um milagre, tem um concurso público aberto, que vai levar esse advogado à depressão e ao burnout pelos casos.
Sobre médico, a faculdade de medicina é uma das mais elitistas e racistas, se o filho dela entrar, vai ter que ter muito estômago e um psicológico inabalável, além de ter que sobreviver ao trote que vira e mexe causa mortes e desistências. Só para se ter uma ideia, o emprego pleno, que o presidente Lula tanto diz que estamos, é baseado em sua maioria na informalidade sem direitos trabalhistas. Mas o problema principal é quem não quer passar por uma vida de privações?
Da mesma forma que a TV e o rádio criaram sonhos para as gerações anteriores, a internet também cria novos sonhos e possibilidades para as gerações mais jovens. Você acredita que a criança que assiste Luccas Neto, Enaldinho e outros influenciadores não vai querer ter o mesmo conforto de morar em uma mansão e comprar várias coisas? Assim como você queria ser a Barbie, ter os carrinhos da Hot Wheels e o notebook da Xuxa que apareciam nos comerciais da TV Globinho e Bom Dia e Companhia?
Teve um comentário de uma moça que relatou ter se quebrado toda porque nunca solicitou ajuda para ninguém e trouxe a geladeira sozinha para casa. Acredito que ela deveria fazer uma terapia, pois se você tem amigos, eles vão aparecer para lhe ajudar. Se você nunca solicitar ajuda, ninguém vai saber do que você precisa.
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