O racismo nos bastidores da Jovem Pan
O ataque de Tutinha a Roberto Nonato expõe a hipocrisia de uma emissora marcada pelo radicalismo político e pelo assédio moral.
É interessante como todo bastidor vindo da Jovem Pan traz informações indigestas. Segundo o jornalista Gabriel de Oliveira (Rick Souza), em sua coluna Canal D no jornal O Dia publicada em 14 de julho, o profissional Roberto Nonato teve sua aparência física comparada pejorativamente à de um 'pagodeiro' por Tutinha, o dono da emissora.
Esse tipo de ataque é uma clara manifestação de racismo estrutural. Me admira o empresário querer julgar a aparência de alguém, considerando que ele próprio tem uma marca de nascença no rosto e deveria entender o impacto de comentários preconceituosos sobre traços físicos.
Aliás, além de fazer essa comparação esdrúxula, o acionista máster da Jovem Pan ainda tentou rifar Nonato pela segunda vez. A primeira tentativa foi deixando Nonato na faixa das 5h às 7h, fazendo-o perder o espaço principal de âncora no Jornal da Manhã quando o programa foi desmembrado em dois.
Nesta segunda tentativa, o jornalista seria dispensado caso Daniel Caniato aceitasse a vaga dele no formato matinal. Sendo assim, o processo de 'fritura' do profissional nos bastidores da emissora foi exposto ao público. Ou seja, só não vê quem não quer.
Não sei qual é a declaração oficial de raça de Roberto Nonato. Mas quando analisamos o cenário que ele está vivendo nos bastidores da Jovem Pan, vemos bem como o racismo funciona nos meios de comunicação comerciais, além de a emissora contar com mínima diversidade em seus quadros, tanto de repórteres como de apresentadores.
Porém, o que esperar da emissora de um empresário que apoiou com gosto a onda bolsonarista? Até recuar ao ver que poderia perder a concessão de rádios devido à disseminação de notícias falsas durante a pandemia da covid-19 e ao apoio de seus funcionários no ar ao inflamar o 8 de janeiro de 2023, além das tentativas de descredibilizar as urnas eletrônicas ao longo do ano de 2022.
É no mínimo uma falta tremenda de respeito com um profissional formado em jornalismo pela FIAM e pós-graduado em Relações Internacionais pela FESP. Com uma invejável bagagem de quase 40 anos na comunicação, com passagens marcantes pela Eldorado, Antena 1, CBN, CNN Brasil e Nova Brasil. Sendo a mais longa pela Rádio CBN, onde ficou durante 30 anos, demonstrando ser um profissional estável em meio a um mercado precarizado e instável.
Não me admira que nomes de outras emissoras recusem a oferta para o cargo de diretor de Jornalismo da emissora, que atualmente está vago. Segundo Gabriel de Oliveira em sua coluna no jornal O Dia desta quinta-feira, a Jovem Pan está em busca de um novo nome para chefiar o seu departamento de Jornalismo.
Nas últimas semanas, a emissora já entrou em contato com profissionais da Record e do SBT, mas levou ‘não’ de todos eles. Os acionistas do conglomerado estão cada vez mais incomodados com as derrotas para a CNN. Já há, inclusive, a piada (com um fundo de verdade) de que a emissora perde 20% de audiência a cada nova ideia mirabolante da atual gestão. O problema é que a Jovem Pan quase não tem mais para onde cair: a sua média diária já está na casa dos 2 centésimos de Ibope.
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