Por que o jornalismo literário em áudio está longe de saturar?

Das grandes produções de grife à resistência de guerrilha dos selos independentes.


Ontem comecei a ouvir "As Irmãs", nova série em podcast do jornalista Chico Felitti, e chego à conclusão de que ele é o Gugu da nova geração/era do streaming. Sua forma de contar histórias e o seu portfólio comprovam isso.

Acompanho o trabalho de Felitti desde o 'hit' de "A Mulher da Casa Abandonada" e consumi as produções “O Desconhecido”, “A Silenciosa”, “O Síndico”, “A Síndica”, “Chá Revelação” e “Elke: A Mulher Maravilha". Só não acompanhei a produção “Vítima da Moda" por restrições financeiras; já as séries "O Ateliê" e "A Coach", optei por não ouvir justamente pelo tema pesado. "De Saída: A vida fora da internet", por sua vez, não me chamou a atenção.

Mas todos os trabalhos em áudio do ex-contratado da Folha de S.Paulo têm o incomum 'modo Gugu' de contar histórias, algo que também Flávio Cavalcanti e outros nomes da televisão e do rádio usaram para marcar seus nomes na cultura do Brasil. O formato de Felitti traz a dualidade entre o comercial e o independente em torno de um jornalista que virou grife, coroado pelo sucesso de público. Junto dele está a jornalista Beatriz Trevisan, que recentemente lançou "Cidade de Lama".

Quem também carrega essa dualidade é a Rádio Novelo, de Branca Vianna, Flora Thomson-Deveaux e Paula Scarpin. Nela, há espaço tanto para o jornalismo independente em séries especiais e histórias de forte emoção quanto para o comercial vendável, no qual se inclui o Estúdio Novelo. Tudo isso sem abrir mão da defesa de pautas éticas ligadas aos direitos humanos.

Já a Rádio Escafandro, a Agência Pública e o Intercept carregam a árdua luta de fazer um jornalismo independente de guerrilha. Suas produções são variadas e essas instituições dependem diretamente da contribuição do público para se manter. Contudo, não serei excludente a ponto de elogiar apenas os dedões grandes do mercado.

Há também o “Vida de Jornalista", de Rodrigo Alves, que faz parte da Rádio Guarda-Chuva ao lado de produções como “Finitude” e “Põe na Estante". E também não posso deixar de citar o "Não Inviabilize", de Déia Freitas, que é uma potência à parte nos tocadores de áudio. O grande trunfo da Déia é a recusa em ficar presa às plataformas tradicionais; ela criou seu próprio aplicativo e ecossistema. Se o Spotify, a Amazon ou a Apple Podcasts saírem do ar amanhã, seus ouvintes não ficarão desamparados.

Outro ponto fora da curva é o “História Preta", do historiador e pesquisador Thiago André, que cumpre a missão vital de resgatar a história da população negra no Brasil, constantemente alvo de apagamento institucional.

Tem quem ache que o mercado de podcasts está saturado, mas, para ser sincero, o que saturou foi o formato de MesaCast. O jornalismo narrativo vai continuar a ter vida longa porque ele é a evolução natural do jornalismo literário, agora em áudio. Sem contar o fator crucial de acessibilidade que esse formato traz para pessoas com deficiência visual. 

Há também os grandes investimentos da Audible (Amazon) em áudios-séries, algo que o Spotify parece ter esquecido após o sucesso de “Paciente 63", estrelado por Mel Lisboa e Seu Jorge. A meu ver, a Audible caminha para nadar de braçada na consolidação do gênero, principalmente com a adaptação imersiva de “1984”, protagonizada por Lázaro Ramos e Alice Carvalho. O mercado de áudio pode até ser considerado de nicho, mas ele é mais rentável e imersivo quando olhamos para as produções audiovisuais atuais, que precisam entregar tudo mastigado para o público. O áudio é um formato que aguça o pensamento crítico e o imaginário do ouvinte.

Sei bem a diferença entre conteúdo de massa e conteúdo qualificado, mas um dos pontos mais interessantes desse mercado atual é que ele está disponível para todos; gasta menos internet que os vídeos virais do TikTok ou do Kwai, mas esbarra na maior barreira do ouvinte comum: o tempo. Infelizmente, nem todos temos as mesmas 24 horas. Talvez isso explique por que o Não Inviabilize se encaixa tão bem na vida do grande público: ele é curto, profundo e simples. 

A Rádio Novelo se baseou no “This American Life", um programa de rádio independente transmitido nas rádios públicas dos EUA desde o meio dos anos 90. Foi dentro da produção deste programa que saiu a equipe que faria o podcast “Serial", que despontou com um sucesso absoluto no ramo do true crime, bebendo da fonte de “A Sangue Frio", de Truman Capote, só que no formato de áudio. Esse fenômeno fez as grandes emissoras americanas apostarem em versões em áudio de seus programas televisivos tradicionais, como o “Dateline NBC", nas plataformas de streaming.

Aqui no Brasil, outro formato de imenso sucesso que seguiu a linha investigativa de Serial é, sem dúvida, o “Projeto Humanos", de Ivan Mizanzuk. Independentemente de todas as polêmicas recentes em torno do uso de Inteligência Artificial, Mizanzuk prestou um serviço histórico à justiça e ao jornalismo ao destrinchar o Caso Evandro.

Sei que neste panorama faltam nomes ainda mais independentes, tal como o meu selo, o CrysNews: De olho na informação. Projetos de guerrilha que, muitas vezes, acabam eclipsados pelas produções gigantescas e pelas co-produções da Globoplay, CBN, Record, Estadão e Folha, mas continuam operando na margem fina da resistência editorial.

O mercado de produções de áudio de fôlego, a chamada 'cauda longa' do jornalismo, começou no Brasil há exatamente 11 anos. Esse ecossistema se consolidou tendo como ponto de partida o “Projeto Humanos” em 2015, seguido pelo “Vida de Jornalista" em 2018, e pelo “História Preta" e a “Rádio Novelo" em 2019. 

Esses nomes, ao lado de repórteres como Juliana Dal Piva, foram os verdadeiros desbravadores desse formato, ocupando no ecossistema de áudio o mesmo papel de vanguarda que os primeiros criadores de conteúdo tiveram nos primórdios do YouTube. Diante de um mercado agora maduro, fica a grande pergunta: quem fará parte da segunda geração? E, mais do que isso, resta saber se essa nova safra sequer existirá, considerando o avanço sufocante da inteligência artificial e os muros das big techs, cada vez mais focados em cobrar para impulsionar conteúdos.

Aproveito o espaço para deixar duas dicas culturais de quem resiste nessa margem, ambas produzidas sob o selo da Rádio Guarda-Chuva: a série em podcast “Discípulos", do jornalista Matheus Marcolino, e a série “Piranhão", da Ocorre Diário.

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